21.6.09

Casa David Cortelazzi. Teresina. 1968.


Perspectiva da Casa David
Cortelazzi. Autoria: Anísio Medeiros. Data: 1968. Fonte: Arquivo familiar.


Esta casa foi projetada por Anísio Medeiros no final dos anos 60 para a família do médico David Cortelazzi , paulista, erradicado em Teresina, que solicitou ao arquiteto, que o projeto tivesse como principio fundamental, uma arquitetura bioclimática. Cortelazzi vai especialmente ao Rio de Janeiro, para conversar com Anísio e expor seus condicionantes ao projeto, segundo depoimento dado pelo médico em entrevista concedida ao grupo de pesquisa.

O terreno adquirido ocupava toda uma quadra (10m x 100m) e na época de construção estava localizada em área afastada do centro da cidade, na região leste, próximo ao Horto Florestal, área possuidora de uma densa massa vegetal, sem possuir energia elétrica, nem água encanada. Atualmente, a casa foi demolida (2004) para dar lugar a um supermercado e a avenida no qual estava construída a residência se transformou em uma das principais artérias comerciais do bairro Horto Florestal.

A casa proposta por Anísio Medeiros ocupava apenas 30% da área total do terreno, possuindo uma configuração em planta em forma de “H”, distribuída em lâminas que se entrecruzavam, criando pátios, um dos quais foi implantada a piscina. A solução da planta baixa apresenta uma proposta modulada, com setorização das áreas, distribuindo a área social em uma das alas do pavimento térreo, os serviços na outra ala, neste mesmo pavimento, e os dormitórios, em uma lâmina com aberturas orientadas para a fachada leste, de forma, a se beneficiar com os condicionantes climáticos.



Foto do arquivo pessoal do ex-proprietário D.Cortelazzi


Observa-se na solução do projeto, a utilização dos critérios modernos, uma vez que a planta é livre, modulada, com estrutura sistemática, independente, com grandes panos de esquadrias em persianas de madeira possuindo estruturação própria, e a casa assume a tipologia de “pavilhão”, com grandes vãos livres e integrados. A solução estrutural empregada de forma sistemática adotou o concreto armado como sistema construtivo e está presente na composição arquitetônica das fachadas, observando-se na volumetria, o uso de volumes puros, através da adoção de platibanda.


Foto do arquivo pessoal do ex-proprietário D.Cortelazzi

Mais uma vez, o arquiteto demonstrou o seu domínio em resolver problemas climáticos, e esta obra era sem dúvida, um exemplar de uma adequada arquitetura sustentável para Teresina, fato que pode ser constatado ao observar-se a solução proposta para o sistema de cobertura da área íntima da casa , onde foi rebaixada a cobertura da circulação, para ser criado um colchão de ar, com aberturas para ventilação constante dos dormitórios.

O trabalho de acompanhamento e detalhamento de interiores desta casa foi realizado pelo arquiteto Antônio Luiz (1935), mineiro, que estudou arquitetura também na FNA/ Faculdade Nacional de Arquitetura do Rio de Janeiro, graduando-se em 1961, e que estava erradicado em Teresina, desde o final dos anos 60 (AFONSO, 2002, p.59-61). Através de depoimento, prestado a pesquisadores do Grupo Modernidade Arquitetônica, o antigo proprietário disse que todos os materiais de acabamento utilizados na execução da obra vieram de cidades do sudeste brasileiro, uma vez que em Teresina, naquela época, o comércio de produtos da construção civil era muito limitado.

Através de levantamento fotográfico, os materiais de revestimentos empregados foram registrados, tais como pisos cerâmicos, pastilhas, louças coloridas, lustres com design moderno e um rico mobiliário que decorava os espaços internos, compondo com acervo de artistas plásticos de renome nacional.


3Ds realizados por Valério Araújo:reconstução virtual da obra demolida


3Ds realizados por Valério Araújo:reconstução virtual da obra demolida


A solução projetual moderna adotada por Anísio neste projeto foi bastante acertada e é uma lástima que tal exemplar tenha sido demolido, pois sem dúvida, iria contribuir de forma positiva na aprendizagem arquitetônica de alunos e pesquisadores da área.


Bibliografia

AFONSO, Alcília. Arquitetura em Teresina:150 anos. Da Origem à contemporaneidade. Teresina: Gráfica Halley. 2002.

AFONSO, Alcília. La consolidación de la arquitectura moderna en Recife en los años 50.Barcelona: tese doutoral apresentada para o departamento de projetos arquitetônicos da ETSAB/ UPC. 2006

AFONSO, Alcília. Arquitetura e documentação: a pesquisa sobre modernidade arquitetônica em Teresina. Anais do 1º. Encontro Nacional de Arquitetura e Documentação. Belo Horizonte, 2008.

AFONSO, Alcília. A preservação da arquitetura moderna nas cidades do nordeste brasileiro: os casos de Recife e Teresina. Anais do Arquimemória 3: Sobre a preservação do patrimônio edificado.Salvador, 2008.

AFONSO, Alcilia. A Fase moderna do arquiteto Anisio Medeiros no Piaui. Disponivel em http://www.kakiafonso.blogspot.com. Postado em 17/09/2008.

ALBUQUERQUE, Johana. Anísio Medeiros (ficha curricular). ENCICLOPÉDIA do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Material elaborado em projeto de pesquisa para Fundação VITAE. São Paulo, 2000.

Anísio Medeiros. Disponível em: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_biografia&cd_verbete=384&cd_item=23 .Acesso em 22 de abril de 2008, 20:24:12

SAMPAIO, A. Arquitetura residencial modernista a influência da escola carioca nos projetos de Anísio Medeiros em Teresina. Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, Universidade de Brasília, Brasília, 2005.

Igara Clube de Parnaíba. Anísio Medeiros


Detalhe da fachada principal. Autoria: Alcilia Afonso. Data: JUNHO/2009.


O “Igara Clube” foi projetado pleo arquiteto Anísio Medeiros eestá localizado na Avenida Beira-Rio, às margens do Rio Igaraçu, na cidade de Parnaíba, região norte do Estado do Piauí. A Cidade de Parnaíba dista da capital teresinense, 350 km e possui um clima tropical semi-árido, quente com temperaturas amenas e ventilação constante anual.

O terreno no qual a edificação está implantada é plano, e na locação, o arquiteto optou por colocar o imóvel pouco recuado da via de acesso, estando o edifício em contato direto com a rua. Na concepção projetual, observa-se mais uma vez, a preocupação de Anísio Medeiros em adotar critérios constantes em sua produção, tais como a atenção à estrutura e às soluções climáticas.

A estrutura desta obra foi solucionada no bloco principal, de forma sistemática e modulada, utilizando na parte frontal, pilares em “V” em pedra da região, com modulação de 3m entre os vão, e pilares em troncos de carnaúba, palmeira regional de grande resistência, que suportam os beirais. Nesta solução, pode ser observada a influência do mestre Lúcio Costa, especificamente do projeto desenvolvido para o hotel em Friburgo, onde o arquiteto utilizou materiais construtivos da arquitetura vernácula compondo com os critérios projetuais modernos.



Detalhe da fachada principal.
Autoria: Alcilia Afonso. Data: JUNHO/2009.



Anísio no projeto do “Igara Clube” demonstrou como é possível aliar modernidade e tradição, trabalhando com grandes vãos livres no pilotis e no salão de festas, transparências espaciais, uso de modulação em planta e fachadas, atenção aos detalhes construtivos aliados a materiais locais, como a carnaúba, a pedra “cabeça de jacaré”, madeiras regionais como o cedro e o jatobá.

A planta em formato de “L” possui na primeira ala- frontal- dois pavimentos, e na ala posterior, apenas um. Esta primeira ala é coberta com um telhado único em uma água, sendo revestido com telha de cimento-amianto. A segunda, com apenas um pavimento, possui uma cobertura que funciona como um agradável terraço-jardim, que serve de mirante e área de apoio ao salão de festas.



Detalhe da fachada principal.
Autoria: Alcilia Afonso. Data: JUNHO/2009.

Desperta interesse na edificação os materiais de acabamento utilizados: cerâmica nas cores vermelha, laranja e preto, irregulares, e formando painéis modulados, criando ricos tapetes nos pisos; pastilhas coloridas em tons de azul e rosa, nos antigos banheiros e corrimãos, em madeira (parte frontal da varanda) ou em barras de ferro lisas, com os empregados no terraço-jardim externo.



Detalhe da fachada principal.
Autoria: Alcilia Afonso. Data: JUNHO/2009.


O que causa desânimo em nossa pesquisa sobre este edifício é constatar o estado de abandono no qual o edifício se encontra. Pertencente a uma sociedade de afiliados ao “Igara Clube”, o prédio está em avançado estado de destruição, abandono, sendo saqueado por pessoas, que não imaginam o mal que estão causando, ao depredarem este importante acervo moderno.

É lastimável ver mais uma importante obra do Arquiteto Anísio Medeiros ser destruída e os órgãos competentes pela preservação não atuarem de uma forma mais eficaz.


Detalhe da fachada principal. Autoria: Alcilia Afonso. Data: JUNHO/2009.

Uma proposta para casa popular piauiense



Proposta de casa popular, com influência da arquitetura piauiense.
Autoria:Kaki Afonso.
Desenhos: 3D. Bruno Andrade



Estamos trabalhando com uma turma de alunos/pesquisadores voluntários e bolsistas do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPI, em projetos para habitação de interesse social a serem implantados em municípios piauienses.

Estas propostas visam projetar uma arquitetura voltada para a realidade sócio-cultural, geográfica e econômica do Estado e serem apresentadas aos órgãos responsáveis pleos programas habitacionais como ADH/ Agência de Desenvolvimento Habitacional e Caixa Econômica Federal.

O que nos parece surreal é que a cartilha difundida pelo program "Minha Casa, Minha Vida",divulgue ali, protótipos modelos que estão sendo implantados nas mais distintas realidades regionais brasileiras.

A FNA/Federação Nacional de Arquitetura já se manifestou com notas de repúdio a tal medida, que além de prejudicar irremediavelmente os usuários, uma vez que estes projetos não possuem identificação com o meio local, ainda retira do mercado profissional arquitetônico a oportunidade de participar deste programa que trará grandes recursos inseridos em programas na área.


5.6.09

A catástrofe da barragem de Algodões 1: maio de 2009.




Foto:Kaki Afonso. junho 2009.

A paisagem devastada no Povoado Franco: Cocal da Estação




Foto:Kaki Afonso. junho 2009.

A impressão de apocalipse:destruição da paisagem.


Estive visitando no dia 4 de junho a área atingida pelos estragos causados pela ruptura da barragem de Algodões 1, região norte do Piauí, que assolou comunidades dos municípios de Cocal da Estação e Buriti dos Lopes, áreas nas quais, passa o rio Pirangi.


A visita técnica fez parte de estudo de caso do Grupo de pesquisas que coordeno sobre Habitação de Interesse Social Piauiense, cadastrado na UFPI/CNPQ/FAPEPI, e que conta com a participação de alunos bolsistas e voluntários do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPI( Jandiane Braga e Lumena Adad).


Acompanhada de técnicos da ADH (Agencia de Desenvolvimento Habitacional), estivemos presenciando a dura realidade que vem passando aquela população ribeirinha que teve suas casas destruídas pela força da água, que após a ruptura da barragem, saiu arrastando estradas, pontes, casas, comunidades, animais e, até, e principalmente, seres humanos, que, infelizmente, morreram em decorrência da catástrofe ocorrida.



Foto:Kaki Afonso. junho 2009.

A vegetação destruida.



Foto:Kaki Afonso. junho 2009.

Estradas viscinais destruidas pela força da água



Não cabe aqui, apontar culpados pela tragédia, mas é lógico que houve erros técnicos gravíssimos durante o cálculo, e a construção da barragem, que não suportou o volume de água planejado para a mesma.


As pessoas que viviam em volta da área da Barragem de Algodões 1, como por exemplo, o povoado de Franco, no qual habitavam mais de 50 famílias, tiveram suas famílias, casas, terrenos, criações agrícolas e pecuárias, completamente destruídas. A região, anteriormente, verde, produtiva, transformou-se em um cenário apocalíptico de destruição ambiental: o solo lavado pela força da água, as árvores arrancadas, e nenhum resquício das antigas casas.




Foto:Kaki Afonso.junho 2009.

A paisagem devastada no Povoado Franco: Cocal da Estação



O que chamou a atenção foi a permanência dos antigos moradores das áreas atingidas, que vão ao local e ficam ali, olhando e relembrando os fatos ocorridos- e que nos parece, bastante compreensível, afinal, ali era o seu habitat, lugar de memórias, de suas estórias e histórias de vida: aonde nasceram, criaram suas famílias, trabalhavam, pescavam, plantavam, possuíam seus comércios.



Foto:Kaki Afonso.junho 2009.

Moradores do Povoado Franco:Cocal da Estação



Perguntamos o que eles desejavam fazer: se irem para uma nova área, projetada, espécies de agrovilas, com casas projetadas, equipamentos sociais, cívicos e religiosos, áreas de produção agro- pecuária- ou se queriam um terreno em uma área que não fora de risco, para recomeçarem as suas vidas.


Foto:Kaki Afonso.junho 2009.

Exemplo de assentamento rural em Buriti dos Lopes: área fora de riscos de inundações.



A surpresa foi escutar que nenhumas das opções lhe satisfaziam, pois o que realmente queriam,era voltar para o mesmo lugar no qual viviam, mesmo sabendo dos riscos que correm.


É difícil chegar a uma proposta de comum acordo,entre o ponto de vista técnico, da implantação em novas áreas que não sejam de risco, e o ponto de vista “sentimental”/social/histórico, que é o da ligação do homem com seu meio natural.


São decisões conflitantes, e que infelizmente serão emergenciais, pois existem centenas de famílias desabrigadas, alojadas em escolas, sem “um teto” para morar.


Contudo, devem-se levar em consideração tais aspectos aqui levantados, a fim de que as instituições municipais, junto com os organismos estaduais e federais possam tomar as medidas mais acertadas para o grave problema social.



Foto:Kaki Afonso.junho 2009.

Casas rurais destruidas na Região de Buriti dos Lopes.



O Grupo de pesquisa propôs uma pesquisa de campo a ser realizada por assistentes sociais, a fim de ouvir os anseios da população em relação ao tipo de moradia, para que após a análise dos dados, possa-se colaborar na proposição de projetos arquitetônicos e urbanísticos para a área.




Vamos aguardar os resultados para podermos colaborar.