21.4.09

A preservação arquitetônica da Casa da Fazenda São José em Lagoa Alegre: Piauí.


foto:kaki afonso.abril 2009
Vista da fachada principal.



A Localização e um pouco da história.

A Fazenda São José está situada no município de Lagoa Alegre (latitude 04º31’ 615” sul, longitude 42º07’105” oeste), a 99 km de Teresina- capital do Piauí, nordeste do Brasil- e está implantada na região da Mata dos Cocais, sendo composta em seu entorno paisagístico, por várias lagoas naturais, carnaubais e babaçuais, que conferem ao local uma beleza natural.

Antes denominada “Fazenda Altamira”, era também conhecida pelos moradores daquela região, por “Lagoa Alegre de Cima”. Possuiu como antigos proprietários o Sr. Domingos Nunes e D. Mulata, filha de Sr. Filedarino, que viveu 104 anos no município, que anteriormente estava vinculado à cidade de União, segundo depoimentos do Sr. Osael Leal, atual proprietário.

Desde os anos 30, a propriedade passou para as mãos do Sr. José Machado Moita e a Sra. Angélica Portela Moita que tiveram quinze filhos, havendo sido criados todos ali, durante um bom tempo, e os alfabetizando em escola construída em anexo à casa, sendo em seguida, enviados para estudar em centros maiores, como Teresina, Recife e Salvador.

Atualmente, os seus proprietários são Osael Borges Leal e Maria Glacy Moita Leal, filha do Sr. José Machado Moita, que vêm conservando a edificação desde a década de setenta.


foto:kaki afonso.abril 2009
D. Glacy,Sr. Osael e Dr.Deusdedith Moita


A Casa da Fazenda.

A fazenda possuía como sede, a casa grande, que além de funcionar como residência, abrigava também, uma loja de gêneros de primeira necessidade, e tecidos, fumo, queresone,entre outros,além de estocar e vender a cera de carnaúba, coco babaçu e nozes de tucum. Em área em anexo, geminada à edificação, foi criada uma pequena escola, que alfabetizava os filhos do proprietário, bem como, os moradores.

O acesso à casa é feito através de uma porteira, que conduz a um grande área plana e alta, "terreiro", com árvores frondosas, como o oitizeiro por exemplo, que contribuem climaticamente no conforto da mesma e de seu entorno.


foto:kaki afonso.abril 2009
Vista da fachada principal


Nos quintais em volta da edificação, estão situadas hortas, pomares com frutas tropicais, chiqueiros que abrigam a criação de galinhas, capotes. Existe resquício de um antigo curral para bovinos e estábulo para criação de caprinos.Também, a fazenda produz uma agricultura de subsistência, havendo plantações de milho, feijão e arroz, possibilitando a sustentabilidade daquela comunidade.

O volume da casa grande é característico da arquitetura rural piauiense, com seu grande telhado em quatro águas, que marca a paisagem com sua sobriedade e imponência. Partindo de uma alta cumeeira, chega-se às terminações de beirais, com uma pequena altura, de aproximadamente 2.50 m, criando uma agradável escala humana, contribuindo na proteção climática dos "avarandados" que circundam a frente e a lateral direita do imóvel.

O programa arquitetônico está composto de "avarandado frontal "(terraço), cômodos que abrigavam a loja, armazéns - de carnaúba, babaçu, sal, milho- quartos, alcovas, e uma grande varanda posterior, que funciona tanto como área de estar, como também, sala de jantar. Os “puxados” ,construidos posteriormente, abrigam cozinha, despensa, e banheiros.


foto:kaki afonso.abril 2009
Vista lateral:peitoril e avarandado


O telhado é um dos pontos fundamentais desta arquitetura, composto por estruturas em madeira maciça, utiliza o âmago do jatobá como peça central, forquilhas e “guieros” em madeiras como o pequiá, a "laranjinha" e a "farinha seca", extraídas de árvores “linheiras” (retas) e duras, segundo explicação dada pelo atual proprietário.



foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhe de telhas feitas na fazenda para a cobertura da casa grande.


O interior da casa é bastante sóbrio, despojado e simples. Observa-se o uso de troncos de carnaúba usados como armadores de redes, como base para cabides, e como ripas dos telhados. O pé-direito dos ambientes é alto, as paredes vazadas e inexistem forros. O piso, originalmente em lajotas cerâmicas de 20 cm x 20 cm, foi substituído por uma capa de cimento queimado.



foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhe de cabides e armador de redes em tronco de carnaúba.




foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhe de armador de redes com base em carnaúba.




foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhe do interior de quarto:observar o uso de troncos de carnaúba.



As paredes do corpo principal da casa são em adobe e taipa, onde foram utilizados barro e pedra “cabeça de jacaré” (canga laterítica) sendo revestidas com pintura em cal.

As esquadrias são originais, em madeiras fichadas e maciças, possuindo soleiras também em madeira, que se conservam até hoje. O uso de "tramelas", que fazem a segurança das mesmas, desperta a atenção, pela sua simplicidade e eficiência na segurança.



foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhes das esquadrias em madeira fichada.




foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhes das esquadrias em madeira fichada.




A preservação da Casa.


Felizmente, observa-se que a família vem esforçando-se em preservar as características originais da casa, mesmo tendo que adaptar novos espaços ao corpo principal da mesma.

O imóvel está bem conservado, necessitando de alguns reparos em sua estrutura na parte posterior, mas de uma forma geral, pode-se afirmar que esta ainda possibilita ao observador, uma leitura do que foi e é, a arquitetura rural piauiense em sua essência.



foto:kaki afonso.abril 2009
José Henrique Moita
(de camisa azul) com seus familiares.


Um dos netos do Sr. José Machado Moita, o geólogo José Henrique Moita, vem desenvolvendo um belo trabalho de resgate da história familiar e sócio-cultural da antiga Fazenda, através de registro em audiovisual de depoimentos orais de membros da família, de antigos "agregados" e técnicos, além de levantamentos fotográficos e documentais. A sua proposta visa produzir um material de educação patrimonial que divulgue a pesquisa, elaborando para isso, vídeos, livro e uma possível exposição para ser veiculada em espaços acadêmicos e culturais.

José Henrique pretende sensibilizar mais ainda a família da importância da preservação da antiga casa e de seu entorno, não apenas, como possuidora de um valor sentimental, mas também e principalmente, como valor histórico – cultural na preservação da identidade da memória piauiense.





foto:kaki afonso.abril 2009
Moradores da Fazenda.




foto:Albino Almeida.abril 2009
A arquiteta Kaki Afonso com crianças caboclas da região, tendo ao fundo a Casa Grande da Fazenda São José de Lagoa Alegre.

7 comentários:

Anônimo disse...

Kaki
Parabens pelo texto e fotos.
José Machado Moita Neto

Anônimo disse...

KAKI AFONSO !

SOU DESCENDENTE (NETO) DE JOSÉ MACHADO MOITA e ANGÉLICA PORTELA MOITA , ADOREI SUA VISITA À LAGOA ALEGRE E SEU BLOG .. VOU COPIA-LO E REPASSAR AOS OUTROS FAMILIARES COMO MENSAGEM..
MUITO AGRADECIDO PELA VISITA A NOSSAS ORIGENS...

NEMEZIO A. MOITA

Anônimo disse...

Kaki!

Parabéns pela a da L. Alegre... e pelas outras (da carnaúba c/ especialidade e da arquitetura indígena)..Falta ler a q mostra fotos de BV em Recife.

J. Henrique Moita

A VIDA É UMA CONSTANTE APRENDIZAGEM X ENSINAGEM disse...

Fiquei feliz e surpresa com o resgate da historia dos MOITAS, ver como está preservada o que foi construida com carinho e suor.
A do meu Tio, e ver primos e filhos revivendo momentos.
parabéns Kaki,

Alcilia Afonso( kaki) disse...

Que bom que gostaram e vamos levatar mais informações.abs

jessica melo disse...

sou piauiense adoro a histoia do meu estado,tambem moro numa fazenda que ainda preserva varias caracteristicas antigas!só que é n municipio de campo maior!!!!!!
a e parabens pelo texto!!!!!!

Anônimo disse...

Parabens por editar um pouco da historia de lagoa alegre, este assunto muito proveitoso.
obrigado